
A chegada de um novo CEO à Disney raramente passa em branco. Quando Josh D’Amaro assumiu o comando da empresa em março, os rumores não demoraram a surgir: e se a Disney aproveitasse a troca de gestão para finalmente separar a ESPN do restante do grupo?
Por semanas, a especulação dominou os bastidores do setor de mídia norte-americano. A ESPN, rede esportiva mais assistida dos Estados Unidos, voltou a ser tratada como um ativo em xeque, um capítulo que a Disney poderia fechar para simplificar sua operação.
Mas a resposta de D’Amaro veio mais rápido do que muitos esperavam. A separação não vai acontecer, pelo menos por ora.
De acordo com reportagem do jornalista Peter Kafka no Business Insider, a Disney “decidiu contra” uma divisão envolvendo a ESPN. Segundo Kafka, a rede esportiva continuará dentro do grupo, que aposta na presença do canal para turbinar sua transição para o streaming. O assunto, por enquanto, é uma “não-discussão”, nas palavras do próprio repórter.
Isso não significa que o tema está encerrado para sempre. D’Amaro pode revisitar a decisão no futuro, se as circunstâncias mudarem. Mas o sinal dado agora é claro: A ESPN fica.
O que estava em jogo
A ESPN carrega uma história complicada dentro da Disney. Até meados dos anos 2010, era a principal fonte de receita da companhia, o motor que financiava parques temáticos, estúdios e aquisições. Com a crise do cabo americano e a migração em massa dos assinantes para o streaming, a rede perdeu força no balanço geral.
Hoje, o lucro operacional da ESPN representa cerca de um terço do que a divisão de experiências da Disney, que inclui parques e cruzeiros, gera para a empresa. A queda é real, e os analistas de Wall Street há anos apontam a ESPN como candidato natural a uma separação.
Outros grupos de mídia já tomaram esse caminho. A Comcast abriu mão da maioria dos seus canais a cabo para formar o que hoje se chama Versant. A Warner Bros. Discovery chegou a planejar um movimento semelhante antes de ser adquirida pela Paramount. A lógica, nesses casos, era cortar o que pesava para focar no que crescia.
A Disney, porém, enxerga a ESPN de forma diferente.
Por que a ESPN ainda vale a pena para a Disney

Ao contrário dos outros canais a cabo em declínio, a ESPN ainda é o pilar que sustenta o pacote de TV paga nos Estados Unidos. Sua audiência cai em ritmo mais lento que a de seus concorrentes, e o esporte ao vivo continua sendo um dos poucos produtos que o público ainda consome em tempo real, sem adiar para o dia seguinte.
Além disso, a Disney apostou pesado no lançamento da ESPN como plataforma direta ao consumidor nos Estados Unidos, um serviço de streaming próprio voltado ao esporte. A ideia é replicar, no ambiente digital, a força que o canal teve durante o auge do cabo.
Até agora, esse caminho se mostrou difícil para praticamente todas as empresas de mídia que tentaram algo parecido, mas a ESPN tem algo que poucos canais têm: conteúdo que as pessoas precisam assistir ao vivo.
A tendência não favorece uma venda. Amazon, Apple e Netflix estão investindo cada vez mais em transmissões esportivas, o que só aumenta o valor estratégico de ter a ESPN integrada ao ecossistema do Disney+.
Uma rede esportiva forte dentro do streaming pode ser exatamente o que mantém assinantes conectados à plataforma no longo prazo.
A Disney também está aberta a vender participações minoritárias na ESPN, sem abrir mão do controle. Um acordo recente com a NFL, em que a liga adquiriu 10% da rede, já deu uma amostra de como esse modelo pode funcionar.
Por enquanto, a ESPN e a Disney seguem juntas. E tudo indica que D’Amaro prefere construir o futuro da rede dentro de casa a apostar numa separação cujo retorno, a longo prazo, ainda é incerto.