
Há histórias que demoram décadas para chegar às telas, não por falta de qualidade, mas por excesso de ousadia. É o caso de O Testamento de Ann Lee, longa da Searchlight Pictures que estreou nos cinemas em dezembro de 2025 e agora se prepara para ganhar uma segunda vida no streaming.
O filme narra a trajetória real de Ann Lee, fundadora do movimento religioso conhecido como Shakers, uma seita devocional do século XVIII que pregava igualdade de gênero, celibato e uma espiritualidade intensa, expressa em danças, gritos e canções coletivas. Uma figura incomum para o cinema comercial, e justamente por isso tão fascinante.
Quem assina a direção é Mona Fastvold, conhecida pelo trabalho em O Brutalista, ao lado de Brady Corbet. Fastvold também assina o roteiro, construindo um retrato visceral que vai desde a vida sofrida de Ann em Manchester, na Inglaterra, até sua imigração para os Estados Unidos às vésperas da Revolução Americana.
No papel principal, a indicada ao Oscar Amanda Seyfried entrega o que foi descrito pela crítica como uma de suas atuações mais intensas.
A trilha sonora é outro ponto de destaque: Daniel Blumberg, vencedor do Oscar também por O Brutalista, compôs canções e músicas originais inspiradas nos hinos reais dos Shakers do século XVIII. As sequências musicais foram coreografadas por Celia Rowlson-Hall, conhecida pelo trabalho em Vox Lux: O Preço da Fama.
Quando chega ao Disney+

Os assinantes brasileiros do Disney+ poderão assistir a O Testamento de Ann Lee a partir do dia 20 de maio de 2026, uma quarta-feira.
O longa foi rodado em película de 35 mm, em Budapeste, o que confere uma textura visual de época raramente vista em produções contemporâneas.
O filme não chega sem curiosidades interessantes nos bastidores.
Fastvold revelou que o projeto enfrentou “zero interesse” da indústria em um primeiro momento. Produtores resistiam à ideia de bancar um drama religioso de época centrado em uma figura feminina. O longa só ganhou vida depois de muita insistência da diretora.
Para as cenas de parto, a produção optou por um realismo pouco usual: foram utilizadas próteses extremamente detalhadas, com o objetivo de retratar o processo de forma direta, sem eufemismos. Uma escolha que reforça o tom visceral que Fastvold buscou em cada cena.
O roteiro também mergulha nos traumas de Ann Lee com profundidade. Ela perdeu quatro filhos ainda na infância, uma dor que moldou sua visão religiosa e seu compromisso com o celibato como forma de proteção espiritual.
A “Cristo Feminina” e os Shakers

Para quem não conhece o movimento, os Shakers eram uma comunidade religiosa que ganhou força nos Estados Unidos no final do século XVIII. O nome vem justamente da forma como se expressavam durante os cultos: tremendo, dançando e cantando em estados de êxtase espiritual.
Um dos pilares da fé Shaker era a crença de que o segundo advento de Cristo se daria em uma mulher. Muitos seguidores passaram a enxergar Ann Lee exatamente como essa figura, o que lhe rendeu tanto devoção quanto perseguição.
Além disso, os Shakers eram extraordinariamente progressistas para a época. Defendiam a abolição da escravidão e a igualdade absoluta entre homens e mulheres, muito antes de esses temas entrarem no debate público americano. Esse pioneirismo os tornou alvos frequentes de hostilidade religiosa e política.
O Testamento de Ann Lee chega ao Disney+ em 20 de maio com a proposta de contar essa história com a seriedade e a liberdade artística que ela merece.