
Não é exagero dizer que o dia 20 de abril virou uma data comemorativa com vida própria. O “4/20”, inicialmente nos Estados Unidos, foi adotado mundo afora como o dia não oficial da maconha, e a cultura pop faz questão de lembrar isso a todo momento, queira você ou não.
O fato é que a relação da sociedade com a cannabis mudou muito nas últimas décadas. O que era unanimemente ilegal em boa parte do mundo foi sendo descriminalizado, regulamentado e, em vários lugares, completamente liberado.
O estereótipo do “maconheiro perdido” virou material ultrapassado para comediantes. Figuras como Snoop Dogg são hoje personalidades queridas pela mídia. Seth Rogen, ator e comediante, é fundador de uma empresa de cannabis chamada Houseplant, que também vende café, móveis e incenso.
De acordo com o Los Angeles Times, cerca de 60 milhões de americanos relataram ter usado a substância em 2022.
É nesse cenário que chega ao Disney+ a série 4:20: Brisa Rápida, disponível a partir desta segunda-feira, 20 de abril. Produzida originalmente pelo Hulu, que pertence integralmente à The Walt Disney Company, a antologia reúne quatro documentários de 20 minutos cada, todos girando em torno de temas ligados à cultura cannabis.
O apresentador Jimmy Kimmel, um dos nomes mais populares da TV americana, assina como produtor executivo. A série tem classificação indicativa para maiores de 18 anos.
O conjunto é mais sobre o que a maconha inspirou do que sobre a droga em si: arte, negócios, filmes, ativismo, comunidades. E há um olhar claramente nostálgico sobre períodos em que tudo isso era muito mais arriscado.
Quatro histórias

O episódio A Viagem de Bong, dirigido por Todd Kapostasy, acompanha a trajetória do soprador de vidro artesanal Jason Harris, narrada por uma de suas próprias criações. O humor é assumidamente pastelão, com trocadilhos ruins que funcionam exatamente por serem ruins.
Já Altamente Improvável, com direção de Brent Hodge, revisita os bastidores de Madrugada Muito Louca, clássico da comédia americana protagonizado por John Cho e Kal Penn. O documentário foca menos na temática cannabis e mais no feito histórico de colocar dois atores asiáticos pouco conhecidos no centro de uma grande produção de Hollywood, quebrando padrões da época.
A Lenda de Ganjassauro Rex, dirigido por Alex Ross Perry, pode ser o mais legal dos quatro. Conta como moradores do Condado de Humboldt, no norte da Califórnia, uma região conhecida pelo cultivo de maconha, se uniram no fim dos anos 1980 para fazer um filme de monstro amador como forma de protestar contra as autoridades. O resultado virou lenda local e, décadas depois, continua inspirando quem o descobre.
O mais sério da série é High Times, de Kyle Thrash, que mergulha na história da revista homônima, referência da cultura cannabis nos EUA. O fundador Tom Forçade, envolvido em tráfico de drogas e que cometeu suicídio, é um dos personagens centrais. Mas quem rouba a cena é Dana Beal, cofundador do movimento Yippie e ativista histórico da cannabis. Ele aparece já na atualidade sendo julgado por tráfico após ser parado no estado de Idaho com 56 quilos de maconha, e também nas ruas de Nova York distribuindo panfletos com a filha em defesa da legalização mundial.
Vale o seu tempo?
Mesmo que a cultura cannabis não seja o seu universo, cada um desses mini-documentários tem competência suficiente para prender a atenção por 20 minutos.
E por serem tão curtos, acabam funcionando como portas de entrada: você pode sair querendo finalmente assistir Madrugada Muito Louca, procurar Garberville no mapa, ou descobrir se o John Holmstrom que editou o episódio High Times é o mesmo que fundou a revista Punk e criou as capas dos álbuns Rocket to Russia e Road to Ruin, dos Ramones. (É sim, a mesma pessoa.)
4:20: Brisa Rápida é uma antologia bem-humorada com seus temas e surpreendentemente capaz de agradar quem nunca pensou muito sobre o assunto.