Be Fri: Disney matou um filme da Pixar que poderia ter sido Guerreiras do K-Pop

Guerreiras-do-K-Pop Be Fri: Disney matou um filme da Pixar que poderia ter sido Guerreiras do K-Pop

O momento da Pixar nunca foi tão contraditório. De um lado, Cara de Um, Focinho de Outro chegou aos cinemas com ótima recepção da crítica e resultados de bilheteria animadores, devolvendo ao estúdio a confiança de que ainda sabe lançar propriedades originais. Do outro, uma história que veio à tona nas últimas semanas jogou uma sombra sobre as decisões tomadas nos bastidores nos últimos anos.

Trata-se de Be Fri, um longa que passou três anos em desenvolvimento, envolveu cerca de 50 pessoas e foi cancelado em 2023 sem nunca ter chegado perto das telas.

Segundo o The Hollywood Reporter, o projeto teria sido barrado pela Disney com um argumento que gerou indignação entre os ex-funcionários do estúdio: “Não podemos ter um filme de empoderamento feminino.”

O que era Be Fri e por que foi cancelado

O projeto era comandado por Kristen Lester, diretora do curta Purl, de 2019. Inspirada por uma amizade da adolescência que se desfez, Lester desenvolveu uma história sobre duas ex-melhores amigas que descobrem que o seriado favorito delas, no estilo Sailor Moon, é real. As duas precisam então partir numa aventura pelo universo para salvar a humanidade.

A equipe criativa incluía o roteirista Blaise Hemingway e o editor Nicholas C. Smith, que se aposentou da Pixar em 2024 após quase 20 anos na empresa. Juntos, eles levaram o projeto por quatro versões diferentes, cada uma em resposta a notas da Disney.

Um ex-funcionário que trabalhou no projeto e pediu para não ser identificado contou que, logo após o terceiro Braintrust, nome dado às reuniões de avaliação internas da Pixar, a Disney pediu uma reformulação completa. Lester e Hemingway fizeram uma proposta ousada: “Sabemos que vocês não gostam de onde o filme está agora. Nos deem seis semanas e refazemos tudo.” E foi o que aconteceu. A equipe passou seis semanas trabalhando dia e noite, sete dias por semana, comprimindo o que normalmente levaria um ano de pré-produção.

O resultado, segundo o ex-funcionário, estava no nível de Cara de Um, Focinho de Outro. Mesmo assim, a Disney cancelou o projeto. “Com cada rodada de notas, a Disney simplesmente não achava que meninos pequenos conseguiriam se identificar com o filme o suficiente”, disse a fonte. “Basicamente, os representantes da Disney disseram: ‘Não podemos ter um filme de empoderamento feminino.'”

Vale lembrar que dois dos maiores sucessos recentes do estúdio têm protagonistas femininas: Divertida Mente 2, que se tornou o filme de animação com maior bilheteria da história, e Red: Crescer é uma Fera, disponível no Disney+.

Um funeral no estúdio

O cancelamento deixou marcas. Ex-funcionários relatam que os colegas se reuniram numa espécie de velório em homenagem ao projeto. “Eles fizeram o que equivaleu a um funeral por Be Fri no estúdio”, conta a fonte. “Havia um lugar onde você podia deixar recados ou coisas que eram especiais para você. Arte espalhada por todo lado em memória do filme, e uma demonstração de carinho por um projeto que todo mundo queria muito ver ganhar vida.”

Outro ex-funcionário disse que a percepção entre parte da equipe é que a liderança do estúdio tem permitido que preocupações com a reação do público guiem decisões criativas. A piada que circulava internamente, segundo essa fonte, era que a direção “não tem espinha dorsal nenhuma.” A Pixar não comentou o assunto.

O cancelamento de Be Fri aconteceu meses após o fraco desempenho de Lightyear nas bilheterias, num momento em que comentaristas conservadores nos EUA geraram polêmica por causa de um beijo entre personagens do mesmo gênero no filme. Foi também no mesmo período em que a Pixar decidiu reformular Elio, retirando características do protagonista que eram lidas como representação queer.

Comparação inevitável

O que tornou a história de Be Fri ainda mais dolorosa para quem trabalhou no projeto foi o sucesso estrondoso de Guerreiras do K-Pop, produção da Sony Pictures Animation que estreou na Netflix e se tornou o título mais assistido da plataforma. O filme ganhou o Oscar de melhor animação deste ano, superando Elio.

As semelhanças com o projeto cancelado da Pixar não passaram despercebidas. “As comparações com Guerreiras do K-Pop são praticamente inegáveis, porque havia aspectos musicais e era uma aventura empolgante”, disse o ex-funcionário. “Consigo imaginar quem na Disney impediu Be Fri de existir olhando para Guerreiras do K-Pop e se lamentando: ‘Não acredito que a Netflix está fazendo exatamente o que queríamos fazer.'”

Enquanto isso, a Pixar segue em frente. Toy Story 5 chega aos cinemas em junho com expectativa de ser um dos maiores lançamentos do ano, e o original Gatto está previsto para o ano que vem. O estúdio tem motivos para otimismo, mas a história de Be Fri deixa uma pergunta no ar: quantas outras histórias ficaram pelo caminho?

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