
Nem toda animação da Pixar nasce pronta, e Cara de Um, Focinho de Outro é um ótimo exemplo disso. Antes de chegar aos cinemas com castores robóticos, humor acelerado e uma protagonista cheia de energia, o filme passou por várias mudanças importantes até encontrar seu formato final.
A ideia inicial de Daniel Chong, diretor do filme, era bem diferente do que o público vê hoje. Quando começou a desenvolver o projeto, ele tinha quatro objetivos: fazer um filme puxado para a comédia, com grande escala, temas fortes e… pinguins.
Essa última parte, porém, não foi adiante. Segundo entrevista com o TheWrap, Pete Docter não aprovou a proposta com pinguins, avaliando que o cinema de animação já tinha explorado demais esse tipo de personagem ao longo dos anos.
A partir daí, o projeto mudou bastante de rumo, e essa virada acabou sendo decisiva para o que Cara de Um, Focinho de Outro se tornou.
Em um estágio anterior, o filme era conhecido internamente como “Penguin Avatar”. A história envolvia cientistas entrando em avatares de pinguins para investigar o desaparecimento de colônias inteiras em uma espécie de thriller com espionagem.
Depois, tudo foi redirecionado para castores. A aventura deixou de ser uma história espalhada por diferentes lugares e passou a se concentrar em um lago, com uma escala menor e mais controlada. Essa troca também ajudou no orçamento. De acordo com a reportagem, Cara de Um, Focinho de Outro custou US$ 150 milhões, ficando entre as produções mais econômicas da história recente da Pixar.
Com a nova escolha, a equipe passou a explorar mais a fundo o comportamento dos castores e os ecossistemas criados por eles, algo que ajudou a dar identidade ao filme.
Na trama, Mabel, uma estudante universitária vivida por Piper Curda, descobre um programa secreto capaz de transferir a consciência humana para animais robóticos. Ela assume o controle de um castor e parte para salvar um lago perto da casa da avó, ameaçado por um prefeito ganancioso, interpretado por Jon Hamm. No caminho, faz amizade com King George, líder dos mamíferos, dublado por Bobby Moynihan.
A história só engrenou quando Mabel virou peça central

O filme também passou por mudanças grandes no próprio enredo. Em versões anteriores, Mabel era recrutada por cientistas para impedir os castores, que estariam roubando da cidade para construir uma superestrutura onde viveriam.
Essa linha acabou abandonada porque, na avaliação da equipe, não fazia sentido que Mabel fosse escolhida para a missão. A solução foi mudar o papel da personagem dentro da trama. Em vez de ser chamada por alguém, ela mesma passa a usar a tecnologia por conta própria.
Essa alteração deu mais urgência ao roteiro e reorganizou toda a história. Foi uma mudança pontual no papel, mas enorme no resultado.
Outro desafio estava na própria construção de Mabel. A equipe passou anos tentando encontrar o equilíbrio certo para que ela fosse intensa e inquieta sem afastar o público. Em prévias do filme, a recepção ao conjunto era boa, mas muita gente não escolhia Mabel como personagem favorita.
A correção veio em uma cena delicada, que ajudou a definir melhor sua relação com a avó. Nesse momento, o público vê Mabel cuidando dela no dia a dia, preparando comida e ajeitando seu cabelo. Foi esse trecho que ajudou a tornar a personagem mais próxima e fácil de abraçar.
Um processo longo dentro da Pixar
Daniel Chong levou para o projeto um estilo muito ligado à sua trajetória anterior na televisão, especialmente após criar Urso Sem Curso. Segundo ele, esse lado mais caótico e brincalhão influenciou diretamente o tom de Cara de Um, Focinho de Outro.
Ao voltar para a Pixar, agora como diretor, Chong quis colocar no longa esse tipo de energia. O resultado foi um filme com muitos gags, ritmo acelerado e um tipo de humor que foge um pouco do padrão mais controlado do estúdio.
Só que chegar nesse ponto levou tempo. O desenvolvimento durou seis anos e passou por oito exibições internas com o chamado Brain Trust, grupo criativo da Pixar que reúne nomes como Pete Docter, Andrew Stanton, Peter Sohn e Domee Shi. Em determinado momento, até Damon Lindelof, criador de Lost e The Leftovers, colaborou com o projeto.
Durante esse processo, a equipe precisou testar várias vezes o tom do filme, tentando equilibrar loucura, ação e pausas mais sensíveis. Chong definiu essa jornada como uma espécie de ultramaratona.
Houve até sequências engraçadas criadas apenas para ajudar o grupo a encontrar o espírito da obra. Uma delas envolvia um cientista dentro de um alce robótico correndo por uma loja de conveniência e provocando uma explosão em um posto de gasolina. A cena não entrou no corte final, mas serviu para unir os principais criadores do longa e definir a energia que eles queriam levar para o resto da produção.
Um filme original em um momento mais difícil para animações inéditas
Cara de Um, Focinho de Outro chega em um período em que o público familiar tem sido mais seletivo ao escolher o que assistir no cinema, muitas vezes priorizando franquias já estabelecidas. Ainda assim, o filme apareceu com boa recepção crítica e começou sua trajetória nas bilheterias com US$ 3,2 milhões nas prévias e US$ 100 milhões até o momento desta publicação.
Ao mesmo tempo, a produção reforça a tentativa da Pixar de reencontrar espaço para histórias originais em meio a um mercado cada vez mais dominado por continuações e marcas já conhecidas do público.
O longa ainda parece carregar muito da personalidade de Daniel Chong, seja no volume de piadas, no desenho dos personagens ou na liberdade para testar ideias visuais e cômicas que fogem do esperado.
No fim, Cara de Um, Focinho de Outro passou longe de ser o filme com pinguins imaginado no início. Mas foi justamente ao abrir mão dessa ideia que a Pixar encontrou um caminho próprio para uma animação que tenta fazer as coisas de um jeito menos previsível.
O filme segue em cartaz nos cinemas.