
A segunda temporada de Mil Golpes chega mostrando que o sucesso do primeiro ano não foi acaso. Mais enxuta, mais agressiva e menos disposta a aliviar, a série criada por Steven Knight retorna disposta a testar seus personagens até o limite.
Com Stephen Graham, Erin Doherty e Malachi Kirby em plena forma, a nova fase assume um equilíbrio. Os eventos do primeiro ano deixaram marcas profundas, e agora basta um erro para tudo desmoronar. O resultado é uma temporada que avança como se estivesse sempre à beira do colapso.
Mesmo com menos de dois anos de existência, Mil Golpes carrega a confiança de uma produção madura, com nota de 7,4 no IMDb e aviação 90% positiva da crítica no Rotten Tomatoes. Steven Knight imprime aqui a mesma precisão que o consagrou em outros projetos, apostando em ritmo firme e decisões de enredo claras.
A 2ª temporada se beneficia por não precisar explicar origens. O público é lançado diretamente na rotina de personagens já bem definidos, em um mundo que parece vivo, sujo e pulsante. Há suor, sangue e tensão nas ruas de Londres, enquanto a sociedade muda e arrasta essas figuras consigo.
Essa ausência de explicações excessivas torna a experiência mais direta. O foco está na tentativa de adaptação, no desejo de escapar das armadilhas do próprio passado e no preço cobrado por isso.
Direção de arte cria um mundo convincente
Um dos maiores trunfos da temporada está no trabalho de produção. Os cenários reforçam a sensação de autenticidade, desde o bar Blue Boy e suas lutas clandestinas até os armazéns decadentes da região portuária.
O cuidado visual ajuda a sustentar a narrativa e cria um ambiente que parece habitado, não apenas construído. A série não apenas mostra Londres, ela faz o espectador sentir o peso daquele espaço, algo essencial para a força dramática da história.
Ao expandir o olhar para além dos becos e alcançar ambientes da alta sociedade, Steven Knight amplia o conflito e coloca seus personagens diante de desafios ainda maiores.
Hezekiah ganha espaço

Se na primeira temporada Hezekiah parecia viver à sombra de Sugar Goodson, o autodeclarado imperador de East End, agora a balança se equilibra. A nova fase oferece mais liberdade ao personagem, afastando-o das limitações da luta corpo a corpo e permitindo um desenvolvimento mais humano.
Malachi Kirby constrói um desempenho contido e preciso. Ele faz menos, mas diz mais. Hezekiah se destaca não pela força bruta, mas pela dignidade e pela maneira como enfrenta um mundo que insiste em lembrá-lo de suas origens.
A série aproveita esse arco para discutir não apenas racismo e colonização, mas também classe social. O desejo de escapar do destino imposto une Hezekiah e Sugar, ainda que por caminhos diferentes.
Mary Carr segue como força essencial da série

Mary Carr continua sendo uma peça central do universo de Mil Golpes. Líder do grupo feminino conhecido como Quarenta Elefantes, ela retorna em uma temporada que aumenta a pressão ao seu redor.
As consequências do primeiro ano recaem com força sobre a personagem, agora vigiada de perto por figuras de autoridade pouco confiáveis. Erin Doherty mantém a personagem longe de caricaturas fáceis, equilibrando firmeza, estratégia e vulnerabilidade.
Mesmo dividindo mais espaço com o restante do elenco, Mary segue fundamental. A série perde força sempre que se afasta dela, e sua presença continua sendo um dos pilares narrativos da história.
Sugar Goodson assume um papel mais contido

Curiosamente, Stephen Graham adota um tom mais reservado nesta temporada. Após um primeiro ano explosivo, Sugar aparece mais silencioso, consumido por culpa e conflitos internos.
Essa escolha funciona. A contenção não enfraquece o personagem, apenas o torna mais complexo. O arco de redenção se desenha com paciência, permitindo que o peso emocional se acumule de forma natural.
A sensação é de continuidade real, algo raro em séries que mudam de tom de uma temporada para outra.
Temporadas curtas demais
Se há um ponto negativo, é a duração das temporadas. Com apenas seis episódios, assim como no prmeiro ano, a sensação é de que Mil Golpes ainda tinha muito a oferecer. O mundo criado é cheio de histórias paralelas e possibilidades que ficam no ar.
Ainda assim, a série encerra sua nova trajetória de forma segura, sustentada por atuações fortes e uma identidade bem definida. Steven Knight entrega mais um trabalho muito bom, provando que sabe exatamente onde quer chegar.
Mil Golpes tem suas duas temporadas disponíveis no Disney+.