
Pouco a pouco, personagens clássicos da Disney vêm atravessando uma fronteira simbólica que muda completamente a forma como podem ser usados pelo público. Depois de Mickey Mouse e outros nomes históricos, chegou a vez de mais um integrante fundamental desse universo dar esse passo.
Criado ainda na primeira metade do século passado, um dos personagens mais reconhecíveis do estúdio acaba de entrar em domínio público. A mudança passa a valer em 2026 e abre caminho para releituras, usos livres e até abordagens completamente inesperadas.
Mas, como costuma acontecer nesses casos, há regras bem específicas sobre o que realmente está liberado.
Pluto entra em domínio público, mas com limitações importantes
Lançado originalmente em 1930, o cachorro Pluto agora faz parte do domínio público. Isso significa que qualquer pessoa pode utilizar o personagem sem precisar de autorização da Disney, desde que respeite um detalhe fundamental.
A liberação vale apenas para a versão mais antiga do personagem, aquela vista nos curtas A Turma da Prisão (1930) e O Piquenique (1930). No primeiro, curiosamente, o personagem nem sequer é chamado de Pluto. Os cães que aparecem na animação são cães de caça sem nome, responsáveis por perseguir Mickey após uma fuga da prisão.

Parte dessas animações foi reaproveitada posteriormente para dar forma ao personagem que viria a se tornar Pluto. Já em O Piquenique, o cachorro aparece com o nome Rover, ainda distante da identidade definitiva que o público conhece hoje.
O nome Pluto só seria adotado oficialmente em 1931, no curta Caça ao Alce (1931). Foi ali que o personagem, criado por Walt Disney e Norm Ferguson, ganhou suas características mais reconhecíveis: um cachorro de porte médio, pelagem amarela-alaranjada e orelhas pretas.
Um dos poucos que nunca falou
Pluto faz parte do grupo informalmente conhecido como “os 6 sensacionais”, que reúne Mickey, Minnie, Donald, Daisy, Pateta e o próprio Pluto. Entre eles, porém, o cachorro sempre ocupou um lugar único.
Diferente dos demais, Pluto nunca foi antropomorfizado. Ele não fala, não anda ereto e não usa roupas como humanos. Sua personalidade sempre foi construída por meio de expressões físicas, reações exageradas e humor visual, o que ajudou a torná-lo um dos personagens mais carismáticos da Disney.
Após Caça ao Alce, Pluto seguiu aparecendo regularmente nos curtas do Mickey até 1937, quando passou a estrelar suas próprias animações. Um dos momentos mais marcantes dessa fase veio em 1941, com o curta Me Dê Uma Pata, vencedor do Oscar de Melhor Curta de Animação em 1942. Até hoje, é o único curta ligado ao universo do Mickey a conquistar o prêmio.
Pluto pode virar personagem de terror?
A entrada de Pluto no domínio público naturalmente levanta uma pergunta que já se tornou comum nos últimos anos. Assim como aconteceu com Mickey, Minnie e outros personagens clássicos, existe a possibilidade de releituras fora do tom familiar.
É importante lembrar que apenas as versões mais antigas, vistas nos curtas agora em domínio público, podem ser usadas livremente. As versões mais modernas, mais conhecidas do grande público, continuam protegidas por direitos autorais da Disney.
Nos últimos anos, esse tipo de liberação resultou em uma onda de filmes de terror baseados em personagens infantis clássicos. O caso mais conhecido é o de Ursinho Pooh: Sangue e Mel, lançado após o personagem Ursinho Pooh entrar em domínio público em 2022. O filme transformou Pooh e Leitão em assassinos e arrecadou US$ 7,7 milhões mundialmente, com um orçamento estimado em apenas US$ 50 mil.
O sucesso abriu caminho para o chamado “Twisted Childhood Universe”, um universo compartilhado que já apresentou versões de terror de personagens como Peter Pan e Bambi, com um filme do Pinóquio em desenvolvimento.
Mickey Mouse, por sua vez, já ganhou pelo menos quatro releituras de terror baseadas exclusivamente em sua versão do curta O Vapor Willie, que entrou em domínio público em 2024. A mais recente delas, Screamboat: Terror a Bordo, trouxe David Howard Thornton, conhecido por viver Art, o Palhaço, no papel principal. Uma sequência, que deve apresentar uma nova versão da Minnie, foi anunciada em outubro de 2025.
Com Pluto agora entrando nesse mesmo território legal, a possibilidade de abordagens semelhantes existe, ainda que nada tenha sido anunciado até o momento.
Para quem tem curiosidade histórica, os curtas citados podem ser assistidos no Disney+.